Lygia

Reclamação sobre
OnlyFans
Não, diz em voz alta o Anjo Sedutor. Acendo depressa um tablete de incenso, oh, mente pervertida. Queria ser santa. Pura como esse perfume de rosas que se enrola em mim e me dá sono. Astronauta também sentia sono quando eu acendia o incenso. E se espreguiçava como me espreguiço, foi com ele que aprendi a me espreguiçar. Gato à toa, por onde você anda. Hein? Dava aulas diárias de preguiça e luxúria mas nunca repetia os movimentos, todo bailarino devia ter um gato. A astúcia. Ao mesmo tempo, o abandono. O desprezo pelas coisas realmente desprezíveis. E aquele cálculo e fixação. Todo feito de delicadezas perigosas o meu gato. Ou Demônio? Nas pausas das lições ficava me olhando, tão mais consciente do que eu na minha inconsciência, como é que eu podia saber? Ainda nem conhecia M.N., não ficava horas e horas minhocando como tenho minhocado, ai meu Pai. Só Jesus compreende e perdoa, só Ele que já curtiu como nós, Jesus, Jesus, como eu te amo! Vou pôr um disco em sua homenagem, espera, ofereço música assim como Abel oferecia ovelhas, é lógico que ovelha é muito mais importante mas Jesus sabe que tenho horror de sangue, minhas oferendas só podem ser musicais. Jimi Hendrix? Escuta, meu amado, escuta esta última musiquinha que ele fez antes de morrer, [Editado pelo Reclame Social] drogado o pobrezinho, todos eles morrem drogados, mas ouça e sei que você vai baixar a mão até sua carapinha cheia de suor e poeira, dear Jimi! Num salto elástico, Lorena se atirou na cama de ferro dourado, da cor do papel da parede. Ensaiou alguns passos de dança, levantou a perna até tocar com o pé descalço na barra de ferro e saltou para cair na estreita listra azul do tapete de juta. Aprumou-se, sacudiu a cabeleira para trás e olhando em frente foi se equilibrando na listra até chegar ao toca-discos. Jimi, Jimi, onde você está? perguntou ela examinando a pilha dos discos na prateleira da estante. Vestia um leve pijama branco com florinhas amarelas e tinha no pescoço uma corrente com um coraçãozinho de ouro. Segurou o disco nas pontas dos dedos. E você, Rômulo? Onde agora? Apertou os olhos úmidos e colocou o disco no prato. Mansamente levantou a agulha e a conduziu como o bico de um pássaro cego até a vasilha dágua. Deixou-a tombar. Lorena! A voz vinha do jardim. Rapidamente ela arrepanhou a cabeleira, torceu-a na nuca e pôs-se nas pontas dos pés. Abriu os braços. Foi andando na listra em caracol do tapete, tensa como uma equilibrista num fio de arame. Lorena, bota a cabeça na janela, quero falar com você! Ela vacilou perigosamente, o pé direito plantado na listra, o esquerdo em suspenso no ar. Descontraiu-se quando conseguiu pousar o esquerdo na frente do outro sem perder o equilíbrio: chegara ao fim da travessia. Inclinou-se para os lados numa profunda reverência, os braços em arco para trás, as mãos se tocando como pontas de asas entreabertas. Agradeceu recuando um pouco, o sorriso modesto posto no chão. Mas empolgou-se ao colher uma flor no ar, beijou-a, atirou-a triunfante para as galerias e voltou rodopiando à janela. Acenou para a jovem que esperava de braços cruzados no meio da alameda. Levou as mãos ao lado esquerdo do peito e suspirou com ênfase: Minha amada, seja bem-vinda. Veja que dia! É primavera, Lião, primavera. Vera, é verdade, prima naturalmente primeira, a verdade primeira. Hum? Numa manhã assim tenho que me segurar senão saio voando, olha as margaridinhas, abriram todas! apontou o canteiro embaixo da janela. Coisa mais joia. Bom dia, minhas margaridinhas! Lorena, será que você podia me dar um pouco de atenção? Fala, Lia de Melo Schultz, fala. Com um movimento brusco, Lia puxou as grossas meias brancas até os joelhos. A sacola de couro resvalou para o chão mas ela se concentrava nas meias, atenta como se esperasse vê-las escorregar em seguida. Apanhou a sacola. Será que amanhã sua mãe podia me emprestar o carro? Depois do jantar. Digamos às nove, entende? Lorena debruçou-se na janela. Sorriu. Suas meias estão caindo. Ou enforcam os joelhos ou ficam desabando. Olha aí. No começo, este elástico apertava de deixar a perna roxa. Mas que ideia, querida, usar meia com este calor. E sapatões de alpinista, por que não calçou a sandália? Aquela marrom combina com a sacola. Hoje tenho que camelar o dia inteiro, putz. E sem meia dá bolha no pé. Provavelmente nas solas. Cafonérrimo. Pior do que bolhas só os tais joanetes da Irmã Bula. Joanete deve vir de Joana, houve uma antiga Joana com os primeiros pés deformados e os netos herdaram a deformação e viraram os joanetos. Ai meu Pai. Primavera, eu apaixonada e Lião falando em bolha no pé. Tenho umas meias tão bacanas, ainda nem usei, quer ir com elas? Só se forem francesas, entende? São suíças, minha queridinha. Não gosto da Suíça, é limpa demais. E nem vão servir, imagine, ela deve calçar quarenta. Que ideia usar meias que engrossam os tornozelos, a coitadinha está com patas de elefante. Ainda assim, emagreceu, subversão emagrece. Lião, Lião, ando tão apaixonada. Se M.N. não telefonar, me mato. Estou demais aperreada para ficar ouvindo sentimentos lorenenses, ô! Miguel, como preciso de você. Falo baixo mas devo estar botando fogo pelo nariz. Lena, escuta, eu não estou brincando. E eu estou? Por que essa pressa? Suba, venha ouvir o último disco de Jimi Hendrix, faço um chá, tenho uns biscoitos maravilhosos. Ingleses? pergunto. Prefiro nossos biscoitos e nossa música. Chega de colonialismo cultural. Mas nossa música não me comove, querida. Se os seus baianos dizem que estão desesperados, acredito, acho ótimo. Mas se vem John Lennon e diz a mesma coisa, então vibro, fico mística. Sou mística. Você é fresca. Fresca, Lião? Você disse fresca repete ela. Debruçou-se mais na janela e em meio do riso envesgou, botou a língua pra fora e colou os polegares na cabeça. Abanou as mãos como orelhas, ah!, é preciso ter saco para aguentar essa menina. Loreninha, é sério. Preciso do carro amanhã digo. Não me ouviu. Ficou de repente angelical, enquanto acenava para alguém do casarão, Madre Alix? Madre Alix que abriu a janela e correspondeu ao cumprimento, a mão erguida no estilo da rainha da Inglaterra. Mas assim que a freira foi embora, fez a careta maior, a que costuma reservar para o fim. Ô, Miguel, segure as pontas, você disse. É o que procuro fazer. Mas às vezes fico oca, está vendo? Não sei explicar mas é duro demais cumprir a rotina, queria ser presa, ficar no seu lugar, por que não fui presa em seu lugar? Queria morrer. A Faculdade ainda está em greve gemeu Lorena bocejando. Apontou para minha sacola: Que é que você tem aí? Metralhadora? Aprumou-se como se manejasse uma, o olho cerrado na mira, os ombros sacudidos pela descarga, teque-teque-teque-teque-teque. Apontou para o casarão, teque-teque-teque. Descarregou em Irmã Bula que fingiu brincar com a Gata mas está atenta em nós. Estou sorrindo porque sei que é exatamente assim que Miguel reagiria. Loreninha, não começa, não gosto dessa brincadeira. Vai pedir o carro? Devolvo no dia seguinte, como da outra vez. Não tem problema. Vocês deviam sequestrar o M.N., Lião. Por que é que não sequestram o M.N.? Ele ficaria escondidinho debaixo da minha cama per omnia saecula saeculorum. Amen. Acendo um cigarro. Que me importa dormir no meio dos bêbados, das [Editado pelo Reclame Social], o cigarro aceso no meu peito, dói sim, mas se soubesse que você está livre, dormindo na estrada ou debaixo da ponte. Mas livre. Não sei aguentar sofrimento dos outros, entende? O seu sofrimento, Miguel. O meu aguentaria bem, sou dura. Mas se penso em você fico uma droga, quero chorar. Morrer. E estamos morrendo. Dessa ou de outra maneira não estamos morrendo? Nunca o povo esteve tão longe de nós, não quer nem saber. E se souber ainda fica com raiva, o povo tem medo, ah! como o povo tem medo. A burguesia aí toda esplendorosa. Nunca os ricos foram tão ricos, podem fazer as casas com as maçanetas de ouro, não só os talheres mas as maçanetas das portas. As torneiras dos banheiros. Tudo de puro ouro como o gângster grego ensinou na sua ilha. Intactos. Assistindo da janela e achando graça. Resta a massa dos delinquentes urbanos. Dos neuróticos urbanos. E a meia dúzia de intelectuais. Os simpáticos simpatizantes. Não sei explicar mas tenho mais nojo de intelectual do que de tira. Esse ao menos não usa máscara, ô Miguel! Precisava tanto de você hoje, esta vontade de chorar, lá sei. Mas não choro. Não tenho lenço, Lorena não acharia fino limpar meu nariz na fralda da camisa. Lorena, me empresta um lenço, estou resfriada digo e tenho vontade de esfregar esta cara molhada de lágrimas. Mas que lenço? Não quero lenço, quero o carro. Quero o carro, Lorena. Posso contar com você? Tenho branco, rosa, azul e verde-malva. Ah, e um turquesa, olha que lindo este turquesa. Então, Lia de Melo Schultz, que cor a senhora prefere? Fico olhando a caixa de lenços que ela foi buscar. Guarda tudo em caixinhas de pano florido, essa é de papoulas vermelhas e azuis com fundo preto. Tem ainda as de prata e couro que ficam nas prateleiras da estante. E sinos. Por onde o irmão passa, manda um sino. Outros colecionam selos, um outro coleciona gravatas e lá adiante um entra na fila de cinema. Maurício aperta os dentes que se quebram. Não quer gritar e então aperta os dentes quando o bastão elétrico afunda lá no fundo. No desenho animado, o gato leva um trompaço e dentes e ossos se trincam. Mas na cena seguinte já se colam e o gato volta inteiro. Seria bom se fosse como nos desenhos, Silvinha da Flauta. Gigi. Japona. E você, Maurício? Quando o bastão entrar mais fundo, desmaia. Desmaia depressa, morra. Devíamos morrer, Miguel. Em sinal de protesto devíamos todos simplesmente morrer. Morreríamos se adiantasse, você disse. Lembra? Eu sei, ninguém daria a mínima. Arrancaríamos o coração do peito, olha aqui meu sangue, olha aqui meu coração! Mas tem um tipo ao lado engraxando os sapatos, que cor de graxa o cavalheiro prefere? O verde. Tiro da caixa o verde-malva que está em terceiro lugar na pilha. Tão delicados os lencinhos que Remo mandou de Istambul, adeus meu lencinho. Lião é capaz de limpar os sapatões em você mas pense no If dos lenços: a poeira é tão digna quanto as lágrimas. Não será uma poeira lunar, tão branquinha, tão fina, a poeira terrestre é da pesada, principalmente essa dos sapatões da minha amiga. Mas não se importe não, seja lenço. Solto-o no espaço. Abriu-se leve como um paraquedas que Lião apanha impaciente. Você está deprimida, Lião? Angústia existencial? Exato. Existencial. Está furiosa comigo, ai meu Pai. Mudou tanto, coitadinha. Quer dizer que Miguel continua preso? E aquele japonês? E Gigi? E outros, estão caindo quase todos, que loucura. E se de repente ela? Ana Clara já viu um careta meio suspeito rondando o portão, Aninha mente demais, é lógico, mas isso pode ser verdade. Sim, Pensionato Nossa Senhora de Fátima, nome acima de qualquer investigação. Mas quando aparece agora nome de padre e freira no horizonte, já ficam todos de orelha em pé. Devolvo amanhã diz ela dobrando o lenço. Fique com ele, imagine. Quer levar mais um? Atiro-lhe o lenço cor-de-rosa que não se abriu como o verde. Por que meu coração também se fecha? Rômulo nos braços de mãezinha, procurei um lenço e não vi nenhum, seria preciso um lenço para enxugar todo aquele sangue borbulhando. Borbulhando. Mas que foi isso, Lorena?! Brincadeira, mãezinha, eles estavam brincando e então Remo foi buscar a espingarda, corra senão atiro, ele disse apontando. Está bem, não quero pensar nisso agora, agora quero o sol. Sento na janela e estendo as pernas para o sol. Fico vermelha e queria ficar marrom, olha que cor. O Fabrizio disse que meu apelido na Faculdade é Magnólia Desmaiada, já pensou? E o velho? Nada ainda? Conto até dez antes de responder, grrrrr! Por que chamar M.N. de velho? Primeiro, ele não é velho. Segundo, ela sabe que sou do gênero enrolado, as coisas comigo não se resolvem assim. Terceiro qual é o terceiro? Estou me esforçando para parecer inatingível. Ficou de telefonar para jantarmos. Você vem com a gente? Estou precisada é de um bangue-bangue. Cinema, imagine. Zona perigosa, tem milhares de zonas perigosas onde a mulher dele ou a prima Acho que o melhor lugar para a gente se ver é o hospital porque se o mundo é grande aquele hospital ainda é maior. Doutor Marcus Nemesius está? eu pergunto e a enfermeira principal fala com a subordinada e a subordinada fala com a subordinada da subordinada que por sua vez fala com aquela lá longe, a que escapou da corrente, o sapato branco, a memória branca. Por acaso é você que está esperando o doutor Melloni?, ela vem e pergunta, depois de duas horas e meia. Não, esse não. Por acaso estou esperando o doutor Marcus Nemesius, ele está? Acabou de sair, ela diz. Não serve outro médico? Se ele não telefonar, vamos nós, Lião. Tenho oriehnid até para caviar. Russo? Não, querida, do Irã. O melhor caviar do mundo. Remo, meu irmão, mandou uma lata. Estou comovida. Mas fico com minha empada da esquina. Aqui tem a sopinha, o picadinho com o jeito assexuado das freiras mas é sempre melhor do que essas coisas que ela come pela rua. E nem toma mais banho, coitadinha. Antes, enchia minha banheira e lá ficava tão feliz, um dia até pediu os sais. Você mudou, Lião. Pra pior? perguntou ela abrindo o lenço e se assoando. Bossa escapamento aberto. Nesse ponto os bichos são tão mais bacanas, nunca vi Astronauta se assoar em público. Buracos demais, secreções demais. Ai meu Pai. Comer empadas no café, que loucura. Mas se viesse com a gente acabava envenenando nosso encontro, adora fazer ironias que M.N. finge que não entende, tão sólido. Tão seguro. Mais vinho, Lião? O vinho ela aceita. Também aceita a lagosta, fala lagostim. Mas precisa lembrar a estatística das criancinhas morrendo de fome no Nordeste, esse assunto de Nordeste às vezes exorbita. Não sei até quando a gente vai ter que carregar esse povo nas costas, horrível pensar isso mas agora já pensei e estou pensando ainda que se Deus não está lá é porque deve ter suas razões. Ah. Sou um monstro. Queria tanto ser diferente, mas queria tanto. E esta vocação para a mesquinharia. Ai meu São Francisco, minha Santa Teresa, son tan oscuras de entender estas cosas interiores. Devolvo amanhã diz Lião guardando o lenço na sacola. Não vai devolver, é lógico. E nem eu aceitaria, lenço é como escova de dentes, não se pode emprestar. Igualzinha a Ana Clara que até agora não aprendeu esta coisa tão simples: não se emprestam objetos pessoais. Lia, Lia! chama Irmã Bula da janela do casarão. A voz é de um gnomo da floresta saindo de dentro de um tronco de árvore. Quer gritar telefone para você!. Leva a mão ao ouvido como se virasse uma manivela, nos telefones do seu tempo tinha que virar a manivela. Ou nasceu antes ainda? Deve ter uns duzentos anos. Lião está com medo. Ana Clara também posa de indiferente mas se não toma tranquilizante recomeça naquele delírio ambulatório. Com a maior sem-cerimônia do mundo abriu minha caixa de lenço-papel e levou mais da metade, anda com montes de folhas para se limpar depois do amor. O certo seria tomar um banho em seguida, é lógico, higiênico e poético correr nua até o chuveiro. No campo, correr debaixo da cascata, chuáaaaaa! Mas faz a toalete como uma doméstica apressada. Certos gestos e palavras de Ana Clara, coitadinha. Tudo está nos detalhes: as origens, a fé, a alegria. Deus. Principalmente as origens. Lá sei das minhas, me disse quando ficou de fogo. Nem quero saber. A margaridinha aí embaixo pode dizer a mesma coisa, nada sei da minha raiz. Mas e a gente? Nem pai nem mãe. Nem ao menos um primo. Não tem ninguém. Pelo visto, a Bahia inteira deve ser da parentela de Lião mas Ana Clara é o avesso do quadro familiar. Nem uma tiazinha para lhe ensinar que tudo que se faz antes e depois do amor deve ser harmonioso. É antiestético masturbar-se? Não propriamente antiestético mas triste. No tempo em que Lião fazia milhares de pesquisas, fez uma entre as meninas da Faculdade, quantas se masturbavam? Incrível o resultado entre as virgens. Incrível. Estamos saindo da Idade Média, disse ela examinando a papelada. Heranças das nossas mães e avós, entende? Somadas aos hábitos da adolescência, dá essa porcentagem alarmante. Você também se masturba?, perguntou cravando em mim o olho negro da Inquisição. Duas abelhinhas louras, dessas que só fazem mel e amor, pousaram no meu pé, primeiro uma e depois a outra. Afasto-as brandamente, o gesto tem que ser brando para que não se sintam rejeitadas, viu, M.N.? Se você não me quiser, é assim que deve fazer comigo, vai, minha abelhinha, vai. Antes de voar, a maiorzinha delas esfregou as duas patinhas dianteiras, como quando se lavam as mãos e em seguida esfregou uma das patas até a extremidade do abdômen listrado de amarelo. Não deu para ver onde exatamente a mão foi parar mas se Lião fosse pesquisar também entre as abelhas, tu quoque, bestiola?! Bestiola é inseto. E abelha? Enfim, ela perguntou e se não respondi com maior nitidez foi porque nunca podia bem alcançar aquela tarde lá atrás. Masturbação? Aquilo? Treze anos, lição de piano. O Camponês Alegre. Participei tanto da alegria que a banqueta oscilava para a frente e para trás, o ritmo se acelerando, acelerando. A ânsia no peito, o sexo pisoteando a almofada com a mesma veemência das mãos martelando o teclado sem vacilação, sem erro. Nunca toquei tão bem como naquela tarde, o que hoje me parece completamente extraordinário. Desci da banqueta como de um cavalo. Na hora do jantar, mãezinha me beijou toda comovida: Ouvi seu piano enquanto mexia a goiabada, você tocou divinamente. Então fiquei sorrindo para o prato: meu primeiro segredo. Rômulo atirou em mim uma bolota de miolo de pão e Remo enfiou um besouro no meu cabelo mas quando fomos para a varanda, me senti luminosa como uma estrela. E se Rômulo não viesse me assustar com um lençol, poderia ter permanecido mais de dois minutos em levitação. A segunda vez também foi na fazenda, enquanto tomava banho. Ainda por acaso. Entrei na banheira vazia, deitei-me no fundo e abri a torneira. O jorro quente caiu no meu peito com tamanha violência que escorreguei e ofereci a barriga. Da barriga já pisoteada o jato passou para o ventre e quando abri as pernas e ele me acertou em cheio senti num susto a antiga exaltação artística, mais forte embora dessa vez não tivesse o piano. Fechei os olhos quando Felipe cruzou e recruzou meu corpo com sua moto vermelha, Felipe, o do blusão preto e moto. Escondi nas mãos a cara querendo fugir e ao mesmo tempo colada ao fundo da banheira com a água subindo destemperada, já me cobria inteira, as borbulhas rebentando no meu queixo, por que não abri o ralo? Saciada e insaciada ela (ou eu) pedia mais, a boca. Penetrou-me, encachoeirada, tapou-me o nariz, pronto, vou morrer! pensei num salto. Fugi aos pulos. Era o amor? Era a [Editado pelo Reclame Social]? Uma coisa só, respondi num verso. Nesse tempo eu escrevia versos. A Gata aproximou-se da sacola que Lia deixara no meio da alameda. Cheirou o couro, desconfiada. Sentou-se meio de lado por causa da barriga. E ficou olhando para Lorena, encarapitada na janela do quarto. Esse quarto e o banheiro disso Lorena estava certa foram do motorista da família dona do casarão. Embaixo, a garagem do carro provavelmente antiquado. Em cima, senhor absoluto, o chofer desordeiro e sensual, amante da copeira que se chamava Neusa, nome escrito muitas vezes com o bastão de barba ou desodorante branco na parede caiada de azul. Dela ficaram alguns grampos apontando por entre as gretas do assoalho. E o perfume de jasmim num frasco quebrado no ladrilho do banheiro. Com uma pequena reforma, sua menina poderá ficar muito bem aqui, disse Irmã Priscila com um otimismo que contagiou Lorena, agarrada ao braço da mãe que por sua vez segurava firme no de Mieux. Voltou para ele a cara perplexa, nessa época o consultava até para saber se devia ou não tomar uma aspirina. Dê sua opinião, querido. Não vou gastar demais? Isto está um horror, queixou-se repugnada com o perfume de jasmim misturado ao cheiro de urina. Mieux piscou para Lorena. Ficava eufórico quando podia mostrar seu prestígio: Vai ficar a coisa mais joia do mundo, já estou com umas ideias. Quero este banheiro todo cor-de-rosa, é importante que ela se sinta num ninho quando se despir para o banho, disse ele atirando a ponta de cigarro no vaso rachado. Bateu a porta atrás de si e cheirou o lenço: Este quarto imagino amarelo bem claro, tenho o papel de parede, a cama dourada ali naquele canto. A estante e a mesa naquela parede. Neste espaço, o armário embutido. Ali, a minigeladeira e o barzinho, hein, Loreninha?. Apanhou no chão uma carta de baralho, era uma dama-de-espadas. Colocou-a de pé na frincha da porta. E como mãezinha ia na frente e Irmã Priscila se ocupava em fechar a janela, ele aproveitou e passou a mão na minha bunda. Aconteceu alguma coisa? perguntou à Lião que voltou correndo. Arfava. Chutou uma bola de jornal que a Gata estraçalhou. O chá que ofereceu ainda está valendo? Agora aceito essa taça. Mais um telefonema desses e entorto completamente. Tiro depressa o pijama e visto a malha preta de balé. Ouço Lião subindo a escada, degrau por degrau. Na alegria, ela sobe em três saltos, coitadinha. O namorante preso, o ano estourado por faltas, a mesada estourada antes do tempo, mais da metade dá ao tal grupo. Ai meu Pai. Posso baixar isto? pergunta ela indo reta na direção do toca-discos. Baixou tanto que a voz de Jimi Hendrix virou voz de formiguinha debaixo da mesa. Acendo o fogareiro elétrico, faço mais dois movimentos para desenvolver o busto e abro na mesa a toalha. Pego as xícaras. Os pratos. Trago a cestinha de pão com a fita vermelha entrelaçada por entre a tessitura da palha, dando a volta toda até o encontro das pontas para o laço. Fico admirando a graça do estampado da toalha com suas grandes folhas de uma tonalidade verde-quente por entre as quais espia meio escondido o olho asiático de uma ou outra laranja. O prazer que encontro neste simples ritual de preparar o chá é quase tão intenso quanto o de ouvir música. Ou ler poesia. Ou tomar banho. Ou ou ou. Há tantas pequeninas coisas que me dão prazer que morrerei de prazer quando chegar a coisa maior. Será mesmo maior, M.N.? Me mato se ele não telefonar digo abrindo os braços e indo na ponta dos pés até a geladeira. Tenho uvas e maçãs maravilhosas, querida. Lia sentou-se no tapete e começou a roer um biscoito. Está sombria como um náufrago comendo o último biscoito da ilha. Catou os farelos que se entranharam nas pregas da saia, mas por que essa saia hoje? Apesar do popô de baiana exorbitar, acho que ainda fica melhor de jeans. Problemas, Lena. Problemas. Ah! esqueça disse tentando aplacar com as mãos a cabeleira crespa. Cravou em mim o olho objetivo: Não deixe de pedir, ouviu? Atiro-lhe uma maçã. Em sua honra botei na mesa uma toalha nova, não é linda? Diga que é você quem vai usar, entende? O quê? O carro, Lena, para de sonhar, presta atenção, você vai pedir o carro à mãezinha! Deito-me de costas e vou pedalando. Posso chegar a duzentas pedaladas. Este exercício é ótimo para engrossar as pernas, incrível como minhas pernas são finas. Você teria que pedalar ao contrário para afinar as suas digo e seguro o riso. Ela mordeu a maçã com tanta fúria que senti o reflexo no meu joelho que estalou. Depois do jantar, Lorena. Não esqueça, depois do jantar, está me ouvindo? Diga que é pra você. Carro, carro. A máquina está varrendo a beleza da terra, ai meu Pai. E vamos entrar na Era de Aquário, quer dizer, domínio da técnica, mais máquinas. O trânsito aéreo, balões e jatinhos individuais, o céu preto de gente. Não quero nem saber, fico lendo meus poetas em cima de uma árvore, deve sobrar alguma. Comprei ontem uma edição linda de Tagore digo me sentando no tapete. Junto as palmas das mãos no peito: Velo ao longo das noites por aquele que me [Editado pelo Reclame Social] o sono. Construo as paredes daquele que derrubou as minhas. Passo a vida colhendo espinhos e semeando flores. Choro por beijar aquele que não me conhece mais. Ela atirou-me um olhar baixo. Deu uma risadinha e falou de boca cheia. Não precisa fazer tanto, basta não querer [Editado pelo Reclame Social] o homem da próxima, aprendeu, Madame Tagore? Mas ele não gosta mais dela, querida. Acabou o amor, acabou tudo. Só se pertencem nos papéis. Você acha pouco? Eu me ficho com isso mas precisa ver se ele também se ficha. E onde a novidade nesse poema? Tudo isso está na Bíblia, Lena. Você não lê a Bíblia? Pode procurar, está tudo lá. Recomeço a pedalar com mais energia. Comprei Proust, não é fino? M.N. tem paixão por Proust. Vou ter que ler mas confesso que acho um pouco chato. Grrr! Romance de grã-fino e grã-fino de antigamente é o fim. Nunca tive sacola pra isso disse ela e tirou o cigarro da própria. Vou correndo buscar um cinzeiro e na volta destapo a chaleirinha. A água está quase fervendo, não deixar nunca a água do chá ferver, o paizinho ensinou. Desligo o fogareiro e vou deixando cair o chá na água. Aspiro de olhos fechados o perfume enquanto ponho o cinzeiro debaixo de Lião que não sabe onde jogar os restos da maçã. Seguro o microfone invisível e me aproximo de joelhos. Ela prendeu o cigarro entre os dentes. Por obséquio, queria sua opinião sobre alguns problemas importantes da nossa comunidade digo levantando mais o microfone. Antes de mais nada, pode declinar seu nome? Lia de Melo Schultz. Profissão? Universitária. Ciências Sociais. E Pode-se saber sua atual situação naquela casa de ensino? Rodei este ano. Faltas. Tranquei a matrícula. Muito bem, muito bem. E o livro? Disseram-me que tem um livro quase pronto. Segundo a informação, trata-se de um romance, não? Rasguei tudo, entende? disse ela soprando a fumaça na minha cara. O mar de livros inúteis já transbordou. Ora, ficção. Quem é que está se importando com isso. Deixo o microfone. Rasgou? Não tinha vocação, coitadinha. Mas gostava tanto de escrever suas histórias naqueles cadernões de capa engordurada, para onde ia levava aqueles cadernos. A cidade cheirando a pêssego, imagine. Ofereço-lhe um cacho de uvas mas ela recusa. Não sei o que dizer agora. Tão lúcida quando fala mas quando escreve fica tão sentimental, oh, a lua, o lago. Sabe da novidade, Lião? Vai chegar uma poetisa do Amazonas, já pensou? Só pode ser índia. Vai ficar no seu quarto, querida. Entrego-lhe a xícara de chá fumegante. Pede mais açúcar e fica mexendo o chá e me olhando. Por que no meu quarto? Você aqui nesta mansarda e ainda com banheiro, putz. Índio gosta de banho. O quarto de Ana Clara também pode abrigar uma tribo. Não, lá não, imagine. A índia em estado natural, Ana Clara vai confundir a coitadinha. Mas até janeiro ela já não está casada com o industrial? Guiando um Jaguar preto com almofadas vermelhas. Um diamante do tamanho de um pires no dedo. E um casaco de onça até a ponta do pé. Pooodre de chique! Reviro os olhos e imito Aninha quando respira o ar de femme fatale. Mas Lião continua sombria. Vai mal a Ana Turva. De manhã já está dopada. E faz dívidas feito doida, tem cobrador aos montes no portão. As freirinhas estão em pânico. E esse namorado dela, o traficante O Max? Ele é traficante? Ora, então você não sabe resmungou Lião arrancando um fiapo de unha do polegar. E não é só bolinha e maconha, cansei de ver a marca das picadas. Devia ser internado imediatamente. O que também não vai adiantar no ponto em que chegou. Enfim, uma caca. Abro as mãos no tapete. Examino minhas unhas. Divino-maravilhoso se o noivo milionário se casar com ela. Empresto o oriehnid para a plástica na zona sul, ele só se casará com uma virgem, ela tem que ficar virgem. Ai meu Pai. Você acredita que casamento rico vai resolver? perguntou Lia. Teve um sorriso triste: Devia se envergonhar de pensar assim, Lorena. E vai sair casamento? O moço então não está sabendo de toda essa curtição? Ao invés de ficar pensando no milagre do casamento você devia pensar num milagre de verdade, entende? Não sei explicar mas vocês, cristãos, têm uma mentalidade tão divertida. Vou até a chaleira e encho novamente as xícaras. Paro no meio do caminho. Jimi Hendrix cantava drogado, essa voz meio rouca não é de drogado? Voz turbilhonada de quem pede socorro mas não quer ser socorrido. Ontem ela estava tão lúcida. Diz que Madre Alix ajuda, vai recomeçar com a análise. Quem sabe, hein, Lião? Você acha que nessa altura uma análise vai funcionar? Teria que ser um analista bossa São Sebastião, aquele das flechas, bonito e bom. Então ela se apaixonava por ele e se salvava pelo amor, como nas revistinhas que adora ler. E mais o Jaguar e o tal casaco. Lorena me entrega a xícara com seus fagueiros desenhos de pássaros e florinhas. A toalha de linho combina com a xícara, uma toalha com uma exuberante estamparia tropical. As poltroninhas claras. Os objetos raros. Tudo aqui é muito fagueiro, muito bonito. Você ainda é rica, Lorena? Ela ficou séria. Relaxou o exercício: A tal agência de publicidade de Mieux deu em nada. Com a loja de decoração, mãezinha gastou à beça. E continua gastando, uma sede de novidades. Parecem aqueles milionários americanos na Europa dos anos vinte, sabe como é? Sei lá. Eu perguntei se você tem dinheiro. Defendo minha parte. Por quê? Está precisando, Lião? Despejo mais chá na xícara. Um chá danado de bom. Pulo Lorena que parou de pedalar e agora faz exercício respiratório, já me explicou que tem a respiração solar e a respiração lunar. Acho que vou precisar, Lena. Para umas operações bem diferentes das de Ana Turva. Ai meu Pai. Morro de pena dela. Morre de pena de todo mundo. Vai ver, [Editado pelo Reclame Social] também de pena de mim quando disse que rasguei tudo. Não é uma forma de esconder seu sentimento de superioridade? Ter pena dos outros não é se sentir superior a esses outros? Rasguei o romance, eu disse. E ela ficou quieta. Bebo o chá morno. Uma boa menina. Ana Clara também é uma boa menina, eu também sou uma boa menina. Como vai a coleção? pergunto examinando os sinos arrumadinhos na prateleira. Meu irmão Remo prometeu um dos beduínos lá da Tunísia, ele agora está em Túnis, mora numa casa linda em Cartago, já pensou? Cartago ainda existe, Lião. Delenda, delenda! Mas ainda existe. Outro dia me pediu toda excitada pra ir a uma das reuniões do grupo, essa Lorena que está aí tocando seus sininhos, tlim-tlim, tlem-tlem, tlom-tlom. Pensa que nossas reuniões são daquele estilo dos festivais de contestação: iria com essa malha, botas e um cachecol vermelho pra quebrar o pretume. Os intelectuais com seus filminhos do Vietcongue. Há tanta fome e tanto sangue na tela de lençol. Tão terrível ver tanta [Editado pelo Reclame Social], putz. Como pode, meu Deus, como pode? Revolta e náusea. Náusea sartriana, murmura uma convidada bisonha. Que se cala quando sente no escuro os olhares gelados na sua direção. Silêncio novamente, só o zunido exasperante do projetor, a curtição é longa, tem filme à beça esperando nas latinhas. As luzes se acendem mas as caras demoram pra acender, que horror. Uísque e patê pra aliviar o ambiente. Considerações sobre prováveis nomes nas próximas listas. Voltam os filminhos às respectivas latas enquanto aos poucos voltam todos às respectivas casas. Os que não têm carro pedem carona nos carros disponíveis que vão pro mesmo lado. São bem-humorados, os intelectuais. Até piadas. Mas, justiça seja feita, estão vigilantes. Sobretudo informados, pudera, se reunindo como se reúnem. Sabem que você foi preso e torturado, menino corajoso esse Miguel, é preciso ter coragem, bravo, bravo. Sabem que a Silvinha da Flauta foi [Editado pelo Reclame Social] com uma espiga de milho, o tira soube do episódio do romance do Faulkner, alguém contou e ele achou genial, Milho cru ou cozido?, perguntou o outro e ele deu pormenores: Milho esturricado, aqueles grãos espinhudos!. Os intelectuais estão comovidos demais pra falar, só ficam sacudindo a cabeça e bebendo. A sorte é que o uísque não é nacional. Um ou outro mais fanático se irrita com o tom dos encontros, afinal, ele não reuniu só pro queijo e vinho quando as notícias são as piores possíveis: Eurico continua sumido, foi preso assim que desembarcou e até agora ninguém sabe dele. Desapareceu como personagem de ficção científica, quando o homem metálico emite o raio e o tipo se dissolve com revólver e tudo e fica no lugar uma manchinha de gordura. O Japona deixou uma maleta na casa do irmão, avisou que ia buscar no dia seguinte. Faz um ano isso, a maleta ainda está lá.
Compartilhar:
Reclamações parecidas
Nenhuma reclamação relacionada encontrada.
Comentários (0)
Carregando comentários...